sábado, 14 de julho de 2012

Mercado Tsukiji




Atendendo a vários pedidos, vou falar um pouco do Mercado de Tsukiji ou chamado em japonês de TSUKIJI ITIBA  e não “Tsukiji Shijou”. Situado no centro de Tokyo e dentro de 11 Centrais de abastecimentos, Tsukiji é o maior e o mais movimentado de todos. Também é a maior Central de Abastecimento de Atum do planeta. E claro, é isso que atrai turistas do mundo todo a partir de matérias gourmet, guias de gastronomia e outros.



Com cerca de 230.000 m2, o Mercado de Tsukiji abriga mais de 1000 empresas, onde 820 só de pescados, movimentando bilhões de dólares e pessoas ao ano. Fora que é um labirinto andar pelo complexo alimentício e nas áreas maiores, não dá tempo para a “educação”. Quase fui atropelado mais de 10 vezes e todos os japoneses gritando comigo em vários palavrões. 


Na área de pescados, avistei uma fileira de atuns sem a cauda. Era como se eu coubesse dentro de um peixe de tão gigante que era. Com uma fina camada de gelo, pois os peixes  são congelados instantaneamente nos navios para conservar. Daí que um dos compradores estava abrindo um atum. Com faca? Com uma espada e mais longa que a de um samurai. Com 5 pessoas segurando o cozinheiro-comprador parte o atum, para que ele possa ver por dentro. De certa forma, é um negócio arriscado. Imagina pagar uma fortuna que pode custar R$ 1.200,00 o kilo e ver que é uma merda? Mas não. 


Os olhos treinados de um profissional não erra. Era um tinto. Uma beleza em degradê. Deveria ter kilos de Torô. E ainda gentilmente o chef me deu a raspa que ficou na espada. Juro que queria um bom shari (arroz de sushi) e shoyu, para provar aquela raridade. Mas não. Ao colocar na boca, sabe quando você tem a vontade de chorar de tão bom. É cremoso, doce, gorduroso, derrete, persistente, é puta que pariu!! E as vieiras? Wassabi fresco. Ouriços, lulas, pargos, melões mais caros que um iPhone!! E as maças? E mais um monte de coisa? E a porra do bolso??? Haja grana!!!


Há vários pontos que você pode fazer aquela refeição e tudo muito fresco. Áreas de lazer, museus da gastronomia, você pode comprar os ingredientes mesmo não sendo atacadista, fora as atrações constantes de entretenimento. Você encontra de tudo!! Um paraíso gourmet para os cozinheiros. Mas não se esqueça que por mais famoso seja o local e um ponto turístico, o local é de trabalho. Não se pode pisar dentro sem seguir as regras. Imagina você visitando a torre de um aeroporto e: “Ih, apertei um botão e apaguei um monitor.” e causa uma tragédia? Já viu, né? Só que...

Em 2008, o acesso para a parte (e a mais interessante) de leilão de atuns foi proibida para turistas. Cercado de um cordão, só se podia ver de longe. Vou explicar o porque. Imagine você em um ambiente super barulhento, milhares motores de refrigeração ligadas, empilhadeiras correndo para lá e para cá, milhares de comerciantes e carregadores caminhando, coitado dos leiloeiros tem que ficar berrando. Diferente dos leilões tradicionais, são os interessados que determinam o valor e o leiloeiro é o que berra o preço informando os outros. Para isso, o comprador se comunica com gestos, onde cada dedo corresponde à um número. E esse sinal é tão sutil, que quem não for comprar, tem que ficar imóvel.

Aí chega um turista bem de perto e levanta a mão ou faz um gesto semelhante e o leiloeiro pode confundir com um comprador. E lógico que a coisa é tão rápido que os valores não são anotados. Bagunça geral e tem que recomeçar. 

Isso provocou uma ira entre os comerciantes e funcionários da central na época, que proibiram o acesso dos turistas nessas áreas. Porém a coisa só piorou. Em outras áreas como de hortifruti, granjeiros e tal, como todo turista mete a mão nos ingredientes, brincam, pegam na mão ou no colo para fotos, resultou na proibição geral em 2010. 

Isso causou a ira em vários países envolvendo governos e embaixadas, que não tiveram tempo para avisar. Muitos turistas e principalmente os mais educados, foram altamente prejudicados. Torram uma grana preta para ir ao Japão e não poder visitar um dos pontos mais visitados do país? Mas a culpa é de quem? De meia dúzia que não sabem se comportar!!

Então a Tokyo Metropolitan Center, criou a visita monitorada, onde guias que falam inglês fluente, dão as explicações detalhadas, rigor nos horários, onde se pode fotografar, e muitos outros detalhes. Não interessa se você é uma pessoa pública ou celebridade. Está na casa dos outros, se submeta às regras. Não põe a mão, é não põe a mão, porra!! 

Dessa forma, para quem tiver a oportunidade de conhecer o Japão e ir até o Mercado de Tsukiji, lembrem dessas observações. Na verdade isso vale em qualquer lugar. Respeitem as regras, para que não comprometa o lazer que pode durar por vários anos. 

Recomendo a visita para quem é apaixonado por gastronomia, sem frescura, quem trabalha no ramo, crítico sério de gastronomia e afins. Para curiosos, vá para outros milhares de pontos turísticos, leve a namorada para o não tão interessante subida na Torre de Tokyo, vá fazer compras em Akihabara, paraíso tecnológico ou lojas de departamentos que a mulherada adora.



Katsuobushi




Um bom cozinheiro japonês não usa temperos industriais para fazer o seu caldo-base, chamado em japonês de DASHI. Esse caldo ele é dividido em 2 tipos. O “Ichiban Dashi” (1º Caldo) e “Niban Dashi” ( 2º Caldo). A diferença? No primeiro ferve bem a água e joga as lascas de Bonito (peixe) e espera afundar. Depois tira do fogo e coa o caldo. O aroma fica espetacular, mas sem o Umami. 

No 2º Caldo, pega-se essas mesmas lascas encharcadas e coloca numa outra panela com água e ferve. O resultado é o inverso. Pouco aroma, mas com mais Umami. Esses dois tipos de caldos são bastantes usados de acordo com o critério do cozinheiro e seu preparo.

Mas nesse post, vamos falar sobre a “Lasca de Bonito” (Katsuwonus pelamis) ou KATSUOBUSHI. “Katsuo” é o “Bonito”, da família da Cavala, Cavalinha e Atum, peixes de pele desenhado e sem escamas. “Bushi ou Hushi” é o por ele ficar parecido como uma canoa e ficou Katsuo Bushi. 

Bom, o modo de desidratar são várias e como de costume, o japonês adora colocar o nome em tudo. Então, temos o:

Namaribushi - Bonito cozido e desidratado.

Arabushi ou Satsumabushi - Bonito defumado.

Karebushi - Bonito defumado e polvilha o fungo (Aspergillus glaucus). O produtor retira a umidade periodicamente, até que desidrate totalmente.

Este último, o Karebushi é o mais usado e consumido, pois apresenta uma quantidade enorme de Umami e vitaminas, apesar de mais trabalhoso que os outros. 

Os mais famosos e as regiões onde se produz em grande quantidade são: Província de Kochi, Kagoshima, Tokushima, sul de Wakayama e Mie, e no arquipélago de Izu, que fica no sul de Shizuoka e Tokyo......(tá bom. Sei que o Japão todo é um arquipélago!). São as regiões do sul e centro do país e banhado pelo Pacífico.

Depois de pronto o Katsuobushi, é ralado de lascas usando uma caixinha com uma lâmina. As lascas caem na parte interna e retirada por uma gaveta, conforme a imagem.



Além de fazer o caldo, ele pode ser usado para dar uma aroma peculiar de peixe, mas sem aquele odor que conhecemos, podendo colocar em Okonomiyaki, Takoyaki, conservas, saladas, etc. Eu então, pego as lascas coloco pouco shoyu em cima, uma leve misturada e como junto com arroz branco fresquinho!!! Um excelente prato para preguiçosos como eu!!

Também existem variações de Katsuobushi:

- Katsuobushi Kezuribushi - Bonito defumado e com adição de fungos e ralado. O mais caro e mais usado.

- Katsuo Kezuribushi - Bonito cozido e seco. Mais barato, bem menos encorpado e usado na maioria dos restaurantes populares. Também chamado de “Hana Katsuo”.

- Iwashi Kezuribushi - Em algumas regiões de Shizouka, usam a Sardinha ao invés de Bonito. Mais encorpado que o Katsuo Kezuribushi e mais barato de todos. Rende bem.



Takoyaki





Takoyaki, o bolinho de polvo assado que está conquistando cada vez mais o público brasileiro e uma unanimidade no Japão. Não há faixa etária para o consumo e muito menos classe social. Definitivamente todos comem. 

Mas muitos não sabem, que o Takoyaki é mais para um lanche, que uma refeição. Claro se comer até dizer chega vira, né? Agora o tradicional bolinho de polvo nasceu como? E o começo de tudo isso pode não fazer muito sentido, mas tentemos.

Voltaremos para o ano de 1933. O primeiro Takoyaki não tinha polvo e sim chamado de “Radio Yaki” ou “Radio Assado” (hein?), por causa do botão que tinha de discar para sintonizar o caríssimo rádio que era lançado no Japão. (que baita homenagem).

No recheio era colocado músculo de boi e “konyaku” feito de batata. Depois a massa feita de farinha e só. Mas o nome não pegou, é claro. Então passou a ser chamado de “Niku Yaki” ou “Carne Assada”e ganhou a região. 2 anos mais tarde, a carne foi substituída pelo polvo e na massa foi adicionado o ovo (de galinha), passando a ser chamada de Takoyaki.

O Takoyaki e seu antecessor foram criados pela empresa Aizu-yá situada e funcionando até hoje na Província de Osaka. O curioso que para quem é japonês, “Aizu” é uma famosa cidade de Fukushima. Claro, o fundador Tomekichi Endo nasceu na cidade e em homenagem batizou o nome da empresa. 

Para os nascidos em Osaka, dizem que um bom Takoyaki:

Não precisa de molhos e maionese.
Não suja as mãos.
Mesmo frio, tem que ser gostoso.

Mas a coisa não parou por aí. Depois do sucesso na região, o Takoyaki foi “rolando” pelo país todo...........(sei que não teve graça) e em outras regiões, o prato sofreu algumas mudanças na massa. Mas nunca no polvo. O polvo usado são das espécies “Iidako” ou “Mini Polvo” ou “Mizudako” um dos maiores polvos do mundo. Claro, para quem quer faturar, tem que fazer o bicho render, né?

O modo de fazer é bastante simples...........mas não é. Fácil mesmo é fazer a massa com farinha, ovo e dashi (caldo a base de lascas de bonito e alga kombu). Dependendo do gosto você pode adicionar gengibre vermelho, cebolinha e vai indo. O polvo, deve ser previamente cozido com pedaços de nabo. Só se usa os tentáculos. 



Na chapa com várias cavidades côncavas, despeja a massa. Coloca o pedacinho polvo em todos eles e vem a pior parte de todas. Virar o maldito bolinho!!! Com um espeto de madeira (para iniciantes) ou metal (para profissionais), como se contornasse cada círculo e ao mesmo tempo, mergulhando o espeto, vira o bolinho. Se parar no meio, já era. O líquido da superfície ainda gruda na chapa, o polvo desloca, uma merda.

Vamos supor que consiga virar, aí passa o molho específico para Takoyaki ou do seu gosto. Pode se usar molho para Tonkatsu (Milanesa de Porco), molho inglês e tal.

Depois de pronto, retire os bolinhos e transfira-os para um prato, e finalize por cima com lascas de bonito, um pouco mais de molho, maionese japonês e seja lá o que for.

CUIDADO: Imagine que cada bolinho é um planeta. Seu interior está pelando de quente. Então, quebre-o primeiro e deixa resfriar um pouco, ok?


Um bom lugar para comer Takoyaki em São Paulo?

Izakaya Issa
Rua Barão de Iguape, 89
Liberdade, São Paulo, SP 
11 3208-8819

Kabayaki de Unagui





Tenho praticamente uma tara mortal por Unagui (o prato) e toda vez que vou ao Japão, tenho de aguardar por 5 horas até a próxima conexão para a cidade da minha avó materna, que fica em Fukuoka. Então, perambulando por todos os cantos do espetacular aeroporto de Narita, obrigatoriamente eu como Unagui. 

Esta enguia de água doce, ou chamado de “Anguilla japonica”, vivem em mangues. Pode atingir cerca de 1.3 metros de comprimento, com olhos bem redondos e uma boca grande. Tem sua pele coberta de escamas, porém vistas somente com microscópio. Ou seja o Unagui possui a menor escama do mundo. 

Pois bem. Muitos japoneses comem o Kabayaki de Unagui, primeiro que ele vem grelhado e temperado ao molho feito de shoyu, mirin e açúcar. Com toda a gordura que o peixe tem, unido por esses condimentos, um aroma incrível que puxa qualquer pessoa, como nos desenhos do Pica-pau. Além do aroma, o Unagui é rico em proteínas e de fácil digestão o que não força o já cansado corpo por causa do intenso calor do verão japonês.

Talvez por isso, sempre cai bem eu comer unagui, logo depois de enfrentar cerca de 30 horas de viagem e criar coragem para mais 1 hora de vôo até a casa de minha avó.

A enguia é consumida desde o período feudal japonês na Dinastia Edo (1800 e bolinhas)  e adorado por todos.......que tinham dinheiro, pois até os dias de hoje, é um prato sofisticado. 

O preparo do Kabayaki de Unagui não é tão difícil, mas é muito trabalhoso. Primeiro é a paciência. Vamos supor que você consiga saber onde o unagui vive nos mangues fechados. Depois com uma vara fincada no solo e a linha de pesca amarrada na metade, um camarão no anzol e uma paciência de jó, pesque o bichinho. Leva para a cozinha e deve “criar” na água limpa por 2 à 3 dias, para tirar o barro e o odor. 

Aqui vem a parte um pouco mais complicada. Pegar a enguia viva, que solta uma gosma para escapar de predadores. Vamos supor novamente que tenha essa sorte, finca a cabeça na tábua com um espeto de metal, começa a abrir toda a carne de uma só vez. Aberta a carne e tirada toda a barrigada, você deve “inserir” ranhura sem cortar a pele, para facilitar na grelha e assim todo o caldo penetrar na carne.


Feito isso, vamos grelhar à carvão. Primeiro a carne para baixo vai assando lentamente. A gordura pingando na brasa,..........que espetáculo. Em seguida, tira o filé e mergulha no caldo quase pastoso e agridoce. Volta para a grelha e dessa vez a pele para baixo. Aí que começa a baixaria. É o caldo e gordura pingando na carvão e o aroma? HUUUMMMMM!!!

Depois de pronto, só servir em cima do arroz branco fresquinho e mandar ver!!! Não fique triste ou deprimido depois de ler tudo isso. Temos a enguia já previamente grelhado, temperado e congelado, disponível no mercado brasileiro e inclusive aqui na Adega de Sake. Então....


Ah, o que quer dizer Kabayaki? Se você traduzir “Kaba” no Google, vai sair “hipopótamo” HAHAHAHAHAHAH Não é nada disso. “Kaba” é a Tabúa ou Morrão-dos-fogueteiros, que mais parece uma “salsicha empanada” que se encontra em mangues e pântanos. E seu formato cilíndrico, comprido e na cor marrom, originou-se o nome “Kabayaki” ou “Tabúa Grelhado”. Legal, né?


sexta-feira, 13 de julho de 2012

Chawanmushi






(Do Blog PAPOCOMSAKE)

De papo no twitter com o @bronza e a @ankauf, chef Andrea Kaufmann do AK Vila, comentávamos sobre Chawanmushi. Onde encontrar um bom? Onde encontrar um tradicional? Ou melhor, onde encontrar um restaurante japonês, que fizesse um chawanmushi? Já provei de várias (poucas) casas, mas nenhum me agradou. Até fora de São Paulo. Já cheguei a abrir a tampa, fechar e devolver. Ah, chawanmushi eu devolvo mesmo!!
Chawan, quer dizer “tigela”. Mushi, do verbo Mussu, significa “Cozido à Vapor”. O mais engraçado, foi saber o que é, quando tinha os meus 7 anos de idade. Minha mãe saindo da cozinha com 3 tigelas, pousa a bandeja em cima da mesa. E ao tirar a tampa de cerâmica, a fumaça da bomba atômica. Pergunto à minha mãe:
- Mamãe, o que é isso?
- É como um pudim...
Já cai de boca, ao ouvir pudim, uma das taras que eu tenho. Mas...
- Mas é salgado???
Minha mãe dando risada, me observa afastando a tigela. Criança nessa idade que fixa qualquer idéia ou informação, e quando contrariada, pode repudiar qualquer coisa. E Chawanmushi foi um deles.
Já grandinho e pronto para aceitar o chawanmushi, não estava em plena condição física para provar. Eu estava de cama. 
Mas quando minha entrou, já alertando que fez um Chawanmushi e que não era para eu questionar e experimentar, provei. 
Um quente bastante confortável. O forte aroma do Mitsuba, o sabor e a leveza do ovo, o peso do camarão e o frango que gosto bastante, me “abraçou”de forma, tão gostoso transformando um prato que recusava por anos, para um dos favoritos.
E sempre quando chegava o inverno ou o frio:
- Mãe, a senhora vai fazer Chawanmushi??? Ó, tá frio, hein?
E ela fazia. Em 2 tigelas, o da minha mãe e do meu pai. E na outra tigela gigantesca para servir lámen, era o meu. O certo é comer com hashi, os ingredientes e com a colher o “pudim salgado”. Eu já comia com a colher de sopa mesmo, tamanha era a minha tara.
Só que depois que minha mãe faleceu, faleceu o chawanmushi da minha casa. Não é um prato fácil de fazer. Muito menos prático. É um saco.
No Japão, o chawanmushi é o passaporte ou diploma, para ser considerado um bom Itamae (Tradicional Cozinheiro Japonês). Onde o mais difícil é o equilíbrio entre o Dashi (Caldo de Kombu e Katsuobushi) e o ovo. Sabe quando o pudim dá errado?Só que mais difícil. 
Se colocar muito dashi, o “pudim”, fica mole demais. Se for muito ovo, fica duro e racha. O dashi, se solta. Para saber se o chawanmushi está bom ou não visualmente, basta observar o limite do “pudim” e a parede interna da tigela. Tá bem grudada a ponto de fazer uma curva para cima, e pequenas bolhas, é sinal da perfeição. 
Se ver que está rachado e o caldo separando da tigela, está duro. Muito ovo.
Um dos pratos, que só com muito carinho, paciência e tempo, dá para fazer. E essa dificuldade que tenho de encontrar em restaurante, talvez seja um castigo, por não ter aproveitado o tempo que repudiava.


Nagasaki Champon





A última vez que visitei Nagasaki, foi quando o vulcão Unzen estava em plena atividade e pensei igual ao JB (@botecodojb): “PEGA EU!!” Apesar dos constantes alarmes e as tropas da Força de Auto-Defesa Terrestre correndo com suas viaturas pelas ruas, eu precisava comer. E comer, tem que comer bem.

E mesmo com todo esse agito, avistei uma casa bem simples (para não dizer caindo aos pedaços), uma casa de CHAMPON. Uma fonética que lembra o chinês, resolvi entrar. E claro só eu de cliente. Os únicos dois que estavam para me atender, um casal de senhores ambos com capacete amarelo e jaleco, me deram boas vindas com o tradicional copo de água com gelo. 

Pedi um Champon e fiquei apenas vislumbrando a paisagem externa. Pessoas a um ponto de correrem desesperadamente, viaturas da polícia e jipes acelerando, só faltava um Godzilla destruindo tudo. No que percebo o som de refogado e um delicioso aroma de óleo de gergelim, olhei de volta para a parte interna do balcão e vejo o senhor ainda de capacete, colocando vários ingredientes como cubos de peixes, carnes desfiados, acelga, moyashi (broto de feijão), camarão, shitake e mais alguns ingredientes que não conseguia enxergar de tão rápido, que o velho virava o panelão de um cabo (sei lá o nome disso).

O cheiro estava espetacular. E depois que desligou o fogo, largou a panela no fogão. Estende o esquelético braço para acima da estante e pega uma tigela, quase um ofurô para um yorkshire. Voltando para o fogão, mas da outra panela, agora a senhora (de capacete), puxa a tampa e com uma concha de refeitório militar, pega o oleoso caldo e jorra na tigela-ofurô. Enquanto que o velho, da peneira metálica traz um punhadão de macarrão grosso e coloca na tigela. O mais engraçado, é o sincronismo dos dois. Se eu perguntasse as horas, acabariam derrubando tudo. 

Bom, para finalizar, da panela de um cabo, o velho seleciona ingrediente por ingrediente para a montagem em cima do macarrãozão. De acordo com o tamanho e cor, o gran finalle foram fios grossos de omelete. 

- Então - olhei para o casal. - Isso tudo é para mim?

Era isso mesmo. O Champon é um ensopado que migrou da China através de Nagasaki, a porta de entrada dos estrangeiros. E como na época uma porrada de estudantes e bolsistas da China estavam visitando o Japão e sem muito dinheiro no bolso, pediam aos japoneses, se não podiam incluir mais itens nos lámens e se não havia um macarrão mais encorpado (literalmente). 

Daí veio a sugestão de trocar pelo macarrão chinês, colocando mais coisas para dentro da tigela, mais tempero no caldo, pois o do lámen era a base de misso ou shoyu. Criaram uma nova espécie de prato, alimentando os chineses famintos. Até o caldo mexeram. Agora a base de ossos de galinha e porco. E o nome Champon é o derivado de “Campur” ou “Champuru”, que na língua indonésio significa “Misturar”.

O mesmo termo é usado também para apontar uma bagunça generalizada, ou “suruba” em nosso país. HAHAHAHAHAHAHAHAHA “Aí, que porra de Champon é essa aqui???” 





Akafuku de Mie





Aos 5 anos de idade, visitei o Japão pela primeira vez. Na época não existia o Aeroporto Internacional de Guarulhos e tínhamos de pegar o ônibus executivo da Itapemirim, de Congonhas rumo à Campinas, no novíssimo Aeroporto de Viracopos. E lá era aguardado o Boeing 747-100 da Japan Airlines, que me levaria até Miami, Anchorage (no Alasca) e finalmente depois de 26 horas de vôo no total, pousava em Haneda, em Tokyo.

A casa da minha avó paterna, na cidade de Tsu, Província de Mie, fica na parte central do Japão, onde hoje é habitado por muitos brasileiros. E também, Mie tem o Tratado de Irmandade com o Estado de São Paulo. Por isso, em muitos órgãos governamentais, estações e pontos de ônibus, contém informações em português. Ah, e ainda um pouco distante de Tsu, fica a cidade de Suzuka onde fica o palco do Grande Prêmio do Japão de Formula-1.

Bom, chega de papo. O que me mais fascinou na cidade e claro por eu ser uma criança, foi um doce típico feito apenas por uma massa de feijão Azuki por fora e bolinho de arroz Moti no recheio, chamado de AKAFUKU ou “Sorte Vermelha”.

Mas o negócio é o seguinte: É MUITO BOM!!!

A massa de Azuki que são divididos em 2 estilos: O Tsubu An e Koshi An. Este segundo, onde os grãos são totalmente amassados e retirados qualquer resíduo da casca. Ao colocar na boca, vai derretendo lentamente, mesclando com a maciez porém firme do Moti, feito de Motigome ou como conhecemos, Arroz Glutinoso.

Lógico que se nós observarmos apenas os ingredientes, alguns podem achar: “E?” Mas a sua tradição artesanal de misturar pacientemente o Azuki, o ponto certo, o teor do açúcar textura do Anko (Massa de Azuki), maciez do Moti, torna-se um dos produtos que mais representa a província por séculos. Eu diria do Japão todo. É aberto à visitação e quem for lá vai comprovar o que estou dizendo.

O doce Akafuku, além do famoso doce fabricado na cidade de Ise, leva o  nome da empresa Akafuku Honten, fundada em 1707 e desde então, expondo apenas esse único doce que se tornou um patrimônio local. Só se faz isso!! 

Um ponto fundamental contribuiu para o seu secular sucesso. Desde a sua abertura e até os dias de hoje, a empresa fica às margens do Rio Isuzu e ao lado do único acesso, na época e hoje o mais próximo do Templo Ise Jinguu, onde milhares de japoneses e turistas, passam por lá, inclusive o Imperador. 


Todos os antecessores imperiais são reverenciados pelos monges de Ise e portanto a cada ano, o Imperador Japonês, deve comparecer e prestar a sua homenagem ao seus ancestrais. Seguindo o protocolo, a tradicional cavalgada no cavalo branco com trajes de kimono e a espada. Muito lindo.

Quem passar pela Província de Mie, recomendo muito.........trazer aqui para o Adegão!!! HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA

Onde fica?
AKAFUKU HONTEN
Quadra 26, Ujinakanoki - Ise, Mie
CEP 516-0025
Tel 0120-081-381